Pensando aqui

 

Não trabalho pouco nessa vida não. Trabalho pra xuxu! Entre estudos, aprimoramento, cursos, atendimentos, aulas presenciais e agora em vídeo,lives, vida pessoal, demanda de casa entre outras coisas….
Nos últimos dez anos, desde que mudei da serrinha de Terê para o Rio, eu realmente tenho tido desafios constantes e isso tem me trazido infinitas possibilidades e realizações também.

Me orgulho de minha trajetória, não porque ela foi fácil, mas porque eu não tenho me perdido de mim pelo caminho. Isso implica dizer que muitas vezes tenho que resistir e lutar contra várias atitudes do dia-a-dia, das mais sutis às mais densas.

Seja por uma naturalização do papel da mulher construido socialmente, seja por naturalização de piadas e discursos preconceituosos. Quem convive de alguma forma comigo, sabe disso. Isso sempre me afetou e continua me afetando, porque foi isso que escolhi para ser nessa existência.

Desde que toda essa distopia começou com a última eleição, tenho ficado atenta, não por questões partidárias, mas sim, pela preservação e garantia de direitos, principalmente associados as Leis universais dos Diretos Humanos, que inclusive norteiam a ética e a praxis de minha Profissão de Psicóloga nesse País. Profissão essa, que está pautada na ciência, e por isso responde aos seus critérios e cuidados. Entre eles, a garantia de que a prática clinica precisa de métodos embasados em evidências, excluindo-se portanto, senso comum, achismo, moralismo, opiniões e crenças do psicoterapeuta.
Eu escolhi estar nesse lugar e tenho sustentando uma postura para lidar com isso, que faz sentido para mim.

A gente busca sempre o que faz sentido para nos manter alinhados com alguma prática ou filosofia. Nos últimos anos venho estudando, praticando e compartilhando práticas de mindfulness, também conhecida como atenção plena, essa prática baseada em evidências, principalmente em estudos de neuroimagem, que mostram alterações cerebrais, chegaram ao meio científico em meados de 1979 por Kabat-Zinn, como mais uma ferramenta técnica para tratamento de pacientes crônicos e ajudando a lidar com o desconforto de seus quadros médicos e transita hoje principalmente na ciência médica e psicológica, justamente por mostrar efeitos importantes na redução de sofrimento em doenças crônicas e sintomas de ansiedade, depressão, estresse, além de aumentar o bem-estar.

Essa habilidade que vai sendo exercitada pouco a pouco na rotina, é simples, mas reverbera de maneira profunda na maneira de conduzirmos a vida. A técnica permite nutrir a capacidade de estar atento, permitindo autorregular a atenção que muitas vezes está em vários lugares de maneira tão automatizada que nem percebemos. A prática ajuda a cultivar um espaço de pausa interna para alinhar a minha intenção com as minhas atitudes no mundo e na vida de maneira mais consciente, de forma que cause menos dano ao outro e que permita viver nutrindo atitudes de abertura e flexibilidade. Essa pausa também nos ajuda a escolher como agir, ao invés de simplesmente reagir às situações.

E dai? rsrssr

Daí que, para estar atento hoje nesse cenário de caos, é preciso olhar para tudo. Não negar, não amenizar, por outro lado, não perder o fio de sua conduta no mundo. Lembrar quem você é. Parece haver uma crise nos discursos e valores e todos parecem perdidos no meio desse caos. Parece que não vale mais o cuidado com as palavras, não vale mais cultivar seus valores, porque o caos gera desespero justificável. Mas precisamos ter clareza e equilíbrio mínimo para tomar decisões nesse período. Muitas delas difíceis.

A vida não dá uma pausa para a gente se organizar, isso já aprendi, há tempos. Nós que criamos o espaço para cuidar com delicadeza da gente e das pessoas. As pessoas estão sofrendo de forma coletiva e todos nós compartilhamos esse sofrimento, compartilhamos a nossa humanidade. Se distanciar disso, é se distanciar de sua própria.
Vou dizer até mais, se nesse momento você está eufórico, feliz da vida, se sentindo a pessoa mais iluminada e regulada da face da terra porque você se cuida muito bem, tenho receio de sua implicação no mundo.

Convido a quem estiver se sentido muito perdido de si nesse momento, procure um lugar reservado dentro do possível, feche os olhos, respire fundo, coloque as duas mãos no peito e lembre de uma cena sua da infância. Lembre de algum momento em que talvez se sentiu perdido ou perdida e precisou de algo ou alguém para se encontrar novamente naquele cenário ou situação que era grande demais para você. É desolador né? Pense que seu peito se encheu de confiança quando tudo foi resolvido. Certamente hoje, com a vivência e as ferramentas que você adquiriu ao longo da vida, você tenha mais confiança em si e nas suas escolha e posições, mas se sentir necessidade de buscar equilíbrio, tente entrar mais em contato com você, através das respirações e de preferência de olhos fechados, para amansar os sentidos.
Vasculhe internamente o que faz sentido para você hoje? Que direção você gostaria de tomar? Que texto gostaria de escrever? Que palavras e atitudes gostaria de frisar? Quer se posicionar de forma mais agressiva? Irônica?Quer buscar ferramentas da comunicação não violenta (CNV)?, quer ser mais direto? empático? compassivo? quer ser mais metafórico? Quer ser mais simbólico?

Seja qual for sua a ferramenta, não se perca de si mesmo, Isso sim é custoso nesse momento. Não perca o que você tem de bom dentro de si, não machuque as pessoas em detrimento de discursos fascistas de um governo genocida. Não passe em branco nisso…..estamos no meio do túnel, muitas vísceras à mostra, tá difícil, mas vai passar e precisamos nos ver na saída, com algumas cicatrizes, mas seguindo com nossa história, de maneira honrada pelas nossas atitudes 🙂
Sigamos para mais um dia! Vivendo cada momento, porque respirar é a coisa mais valiosa que podemos fazer nesse momento.
Respire, inspire e expire. Feche os olhos, Abra novamente e veja se tem orgulho de suas atitudes. Qualquer coisa, é só redirecionar a atenção para o essencial no momento. Cada respiração e cada abrir de olhos, é uma nova oportunidade para se reconectar consigo mesmo e com suas intenções

Maristela Candida de Freitas
Psicóloga Clínica em TCC (CRP 05/49323)
Mestre em Saúde Mental (IPUB/UFRJ)
Instrutora de Mindfulness (MBCT) (UNIFESP/OXFORD)

 

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Maristela Candida

Psicóloga clínica (CRP-RJ) 05/49323, especializada em Terapia Cognitivo-comportamental e Mestranda em Saúde Mental pelo Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ). Experiência em atendimentos clínicos na abordagem em Terapia Cognitivo-comportamental (TCC). Professora /Supervisora de TCC do Serviço de Psicologia Aplicada do Centro Universitário Augusto Motta. Membro da Associação de Terapias Cognitivas do Estado do Rio de Janeiro (ATC-RIO) e membro da Comissão de Docentes (ATC-RIO).

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6 Resultados

  1. Joana Silva disse:

    Que texto!

  2. Alex Santos Vieira disse:

    Nossa! Vejo dessa forma também. As coisas estão tão complicadas e você colocou lindamente com essas palavras, parabéns!

  3. Gabriela Soares disse:

    Eu me sinto muito perdida, mas fico feliz que alguém fale sobre isso. Parabéns Maristela, como sempre, escreve e expressa tão bem seus pensamentos. Abraço GAbi

  4. el blog Superbe, qui transpire la pasión à l’pur de Estado … Bernette Townsend Lydell

  5. erotik disse:

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